Entre ruínas e reinvenções: EUA X CHINA POR CLÁUDIA FREIRE
Nos Estados Unidos, a imagem que se multiplica é a de um império em exaustão. Há, hoje, mais de 10 estados em decadência demográfica e econômica, com cidades inteiras esvaziadas, especialmente no cinturão do frio — Dakota do Norte, Montana, Michigan, partes do Ohio. Cidades como Gary, em Indiana, ou Camden, em New Jersey, tornaram-se fantasmas modernos: ruas sem moradores, escolas fechadas, casas apodrecendo ao vento e ao silêncio. A energia, cara. O frio, impiedoso. E o abandono, um projeto político.
Essa decadência urbana é o reflexo de décadas de desindustrialização, desigualdade crescente e uma forma de capitalismo que se recusou a planejar. O país que ergueu arranha-céus e automóveis não soube sustentar suas pontes, suas ferrovias, sua própria ideia de bem comum. O neoliberalismo dos anos 80 — aquele que prometia liberdade e mercado — acabou por cavar o esvaziamento dos corpos e das ideias. E, diante do colapso, os líderes da “América grande de novo” propõem muros, armas e nostalgia.
Enquanto isso, na outra ponta do globo, a China projeta o futuro desde o chão.
O que o Ocidente chama de “autoritarismo” chinês, internamente, se manifesta como planejamento urbano e energético de larga escala. Cidades inteiras são reconstruídas do zero em regiões inóspitas, com painéis solares como base de abastecimento, infraestrutura subterrânea inteligente, resíduos redirecionados, e inteligência artificial usada na gestão do espaço urbano.
Um exemplo é Xiong’an, cidade-modelo ao sul de Pequim, planejada para ser “inteligente, verde e habitável”. Ali, mais de 70% da energia vem de fontes renováveis e os sistemas de transporte não poluentes são integrados à lógica do cotidiano. Há ainda o projeto da cidade do deserto de Kubuqi, onde a China reverteu a desertificação plantando mais de 100 milhões de árvores e instalando usinas solares entre as dunas — uma aliança inédita entre ecologia e alta tecnologia.
A China compreendeu que o sol é a única energia democrática e abundante. E ao invés de construir muros, ela constrói cidades solares.
Mas não se trata apenas de urbanismo. Trata-se de uma visão de soberania climática e tecnológica. O governo chinês entende que permitir o “corpo mole” — expressão popular brasileira que guarda ecos da escravidão — é também permitir o colapso da coletividade. Lá, os jovens são incentivados a aprender desde cedo com rigor. Não por acaso, mais de 50% dos formandos em engenharia do mundo estão hoje na China.
A crítica não é sobre sistemas políticos abstratos, mas sobre como cada país cuida de seu povo e do planeta que habita. Os Estados Unidos, mergulhados na retórica do medo e da liberdade individual, assistem à falência de suas pequenas cidades e de sua própria ideia de futuro. Já a China, que mistura socialismo de Estado com um capitalismo altamente dirigido, reconstrói o presente com os olhos fixos no amanhã — ainda que sob vigilância, ainda que com suas próprias contradições.
Se há algo que Trump e sua turma poderiam fazer, seria não visitar a Muralha da China como turistas, mas aprender com as cidades do futuro que estão sendo erguidas com base em dados, ciência e energia limpa. Há um mundo sendo refeito no Oriente — enquanto outro, no Ocidente, se esfarela lentamente. E entre esses dois movimentos, talvez reste a nós uma escolha difícil, mas urgente:
ou enfrentamos o esforço de repensar o mundo — e sustentamos o peso de imaginar outro futuro possível —
ou deixamos que o planeta se desfaça, pouco a pouco, sob os escombros do pensamento abandonado.
Porque, no fim das contas, quando o pensamento entra em colapso, a terra não tarda a ruir.
SAÚDE MENTAL :
O contraste entre China e Estados Unidos também se revela nas políticas voltadas à saúde mental. Enquanto os EUA enfrentam uma epidemia silenciosa de depressão e ansiedade — agravada pela desigualdade, pelo abandono urbano e pelo colapso dos vínculos sociais —, a China, apesar de sua rigidez institucional, tem lançado planos nacionais para enfrentar o sofrimento psíquico em meio à urbanização acelerada. Pequim e outras grandes cidades registram aumento de transtornos como depressão e ansiedade, impulsionados pelo estresse da vida metropolitana, mas o governo central tem respondido com a criação de centros de atendimento regional, programas escolares de prevenção e uma tentativa de integrar saúde mental às grandes reformas urbanas. Em ambos os países, a cidade adoece — mas apenas em um deles há, ao menos, o esforço coordenado de reconhecer e cuidar da dor invisível.
BANCO DE DADOS UTILIZADO:
- Estados norte-americanos em decadência populacional e econômica, com fontes do U.S. Census Bureau e relatórios de urbanismo.
- Cidades-fantasma dos EUA: Detroit, Gary (Indiana), Camden (NJ) — com dados sobre esvaziamento e abandono.
- Projetos urbanos e energéticos na China: como Xiong’an e Kubuqi, com fontes oficiais e análises externas.
- Políticas de reflorestamento e uso de energia solar na China, com gráficos de evolução.
- Distribuição global de formandos em engenharia: China x EUA x Europa.
- Crescimento da infraestrutura verde e inteligência urbana no planejamento socialista chinês.
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