O que será que está acontecendo no breu ou na luz das tocas? (Parafraseando Chico Buarque)
‘O sujeito em negação não é apenas arrogante, ele está encapsulado no próprio imaginário’.
Escrever sobre a clínica psicanalítica na pandemia só foi possível depois de um ano. Esperei conquistar um certo distanciamento, mas ele não veio. A experiência dos atendimentos on-line se impôs como um eco constante, e agora tento organizar essas impressões.
Em março de 2020, o mundo foi invadido por imagens caóticas. O colapso na Itália foi um prenúncio do que estava por vir. O livre ir e vir foi suspenso, e a angústia se instalou.
Lacan, no Seminário X, nos ensina que a angústia está ligada à paralisia do sujeito. Quando não sabemos o que fazer de nós mesmos, buscamos algo para nos escorar. Quando esse apoio não existe, a angústia toma corpo.
Muitos não tinham no que se escorar. Moravam em casas minúsculas, em meio à pobreza, tendo como único bem um celular com créditos para buscar um ouvido. Durante meses, fomos psicanalistas ativos: o dizer era o apoio ao desamparo.
Com o tempo, a angústia cedeu lugar à melancolia. Mortos enterrados sem cerimônia, sem despedida, sem luto. O silêncio dos cemitérios ecoava na alma de quem ficou.
A situação continua crítica e sombria. A ciência avança, busca vacinas, mas o vírus — real, global, impiedoso — nos lançou no abismo da finitude, na possibilidade de morrer antes da hora marcada.
Quem nunca entendeu o que Lacan chamava de Real aprendeu na carne: ele tomou forma nas células dos que lutaram contra a Covid. O Real, na Psicanálise, é o impossível de ser previsto, o que nos arrebata, paralisa, o “AHN?” que ressoa no íntimo.
Não tive horários livres na agenda. Atendi pessoas de todos os cantos do Brasil e até de fora dele, vindos dos recônditos esquecidos, de pequenas cidades onde a Psicanálise ainda é uma palavra enevoada.
O pacto social sofreu um golpe, e os machucados sangraram no íntimo de cada um de nós. Como curativo, milhares buscaram na própria palavra um modo de nomear a dor e o medo da morte.
Pesquisas mostram um aumento exponencial da ansiedade, depressão, pânico e solidão. Descobrimos que nunca tivemos controle algum — só a ilusão dele, sustentada por uma rotina organizada. O vírus, esse micro não-ser aterrorizante, desmanchou nosso calendário e nos exilou da fantasia de controle.
A repetição e a transferência foram os conceitos centrais desse tempo. Sessões ricas em afetos vívidos, mas marcadas por uma insistência angustiante nos mesmos temas. Registro aqui alguns fragmentos desses encontros, ecos da clínica durante a pandemia:
“A vida em família está apertando a minha mente.” (2020)
“Às vezes, a tristeza leva a minha vontade.” (2020)
“A pandemia é o medo encarnado. Hoje consigo lidar com ele, mas está em todos os cantos da minha casa.” (2021)
“Não saber o que pode acontecer com a minha vida me desespera. Sinto que perdi minha vida de antes, e ela nunca mais voltará. Quero minha vida de volta, quero meu país de volta. A barbárie está nos governando, e o governo sequer se afeta.” (2020)
“Minha família está planejando o que fazer caso alguém morra: senhas do banco, impostos atrasados, prestação da casa. Uma conversa para organizar a morte, para não deixar os filhos desamparados.” (2020)
“Minha família não se importa com a vida. Nega a realidade da pandemia. Sonho com uma grande onda num mar nervoso, que me leva e leva todos da minha família.” (2021)
“Mudei para a casa da minha mãe para evitar que ela ficasse sozinha. Nossa relação avançou. Somos duas adultas, uma apoia a outra.” (2020)
“Meus amigos não pararam com as baladas. Eu também fui a algumas, até pegar Covid e quase morrer. Eu ia porque não aguentava mais ficar presa, precisava descarregar, era delicioso. Mas o preço foi alto.” (2021)
“Nunca me senti tão viva! Descobri habilidades que eu não sabia que tinha. Agora, entre um trabalho e outro, almoço com minha família. Meus companheiros de escritório são os meus.” (2021)
“Meu casamento vivia uma crise silenciosa. Agora eu a conheço mais, e ela a mim. Estamos mais próximos.” (2021)
Esses relatos compõem a experiência do “novo normal”, um conceito que tentou nomear esse tempo de desconstrução dos modos de viver e estar com o outro. A vida pública foi arrastada para dentro das casas, obrigando-nos a encarar aqueles que chamamos de família — que, para muitos, eram mais estranhos que os colegas de trabalho.
Quando o Real se impõe, a negação é uma defesa possível. A negação governamental nos condenou a um luto interminável. O recuo narcísico do poder instaurou o descaso.
O sujeito em negação não é apenas arrogante — ele está encapsulado no próprio imaginário. O preço dessa defesa está sendo pago por todos nós.
A clínica, hoje, talvez seja despertar o sujeito para o real. Fazer furo no imaginário, nomear as perdas, elaborar o luto do mundo anterior para construir um lugar no novo mundo ‘mascarado’.
Cláudia Freire. 2021.
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