A Justiça Robotizada e a Morte do Sujeito:
“Se o direito ignora as narrativas humanas, ele não merece o nome de justiça, mas apenas de burocracia”. Ronald Dworkin.
O discurso jurídico, em sua essência, deveria ser o espaço privilegiado para a escuta e a construção de uma narrativa que permita ao sujeito ser plenamente compreendido em sua singularidade. Contudo, o que se observa hoje, especialmente no sistema de justiça brasileiro, é a consolidação de um processo robotizado, que desumaniza os envolvidos ao reduzir suas falas a meros protocolos formais. Essa robotização, sob o pretexto de garantir eficiência, sacrifica aquilo que deveria ser o alicerce da justiça: a consideração da subjetividade como elemento central do julgamento.
Advogados, que deveriam ser os artífices dessa ponte entre o humano e o técnico, têm, em muitos casos, abdicado de seu papel fundamental. Ao invés de construírem uma defesa calcada na narrativa robusta dos fatos, preferem adotar estratégias reducionistas, ensaiando respostas binárias e silenciando seus clientes. Essa prática não apenas limita o direito de defesa, mas também contribui para o apagamento do sujeito no processo, transformando-o em uma peça muda dentro da engrenagem judicial.
A narrativa jurídica não é um adorno ou um excesso; ela é a estrutura que confere sentido e profundidade ao discurso. Sem ela, os fatos se tornam fragmentos desconexos, incapazes de revelar a complexidade das relações e das circunstâncias envolvidas. A ausência dessa narrativa, frequentemente causada pela insegurança e despreparo de muitos profissionais, é uma das principais causas da falência da defesa. A inaptidão em lidar com o inesperado, em questionar contradições ou em explorar lacunas no discurso adversário é, muitas vezes, mascarada por uma postura agressiva ou defensiva, que nada mais é do que reflexo de uma fragilidade estrutural.
Essa desconexão entre discurso e prática é exacerbada pela própria estrutura da justiça contemporânea, que privilegia a forma em detrimento do conteúdo. Juízes e promotores, muitas vezes, reforçam essa lógica ao ignorar as nuances das narrativas apresentadas, optando por decisões baseadas em um tecnicismo que obscurece a humanidade dos casos julgados. Quando a singularidade do sujeito é desconsiderada, a justiça deixa de ser um espaço de reparação e passa a ser um sistema automatizado de distribuição de sentenças.
A questão, no entanto, não é apenas técnica; é profundamente ética. A desumanização do discurso jurídico afeta não apenas os réus, mas também os próprios operadores do direito, que se veem presos a um modelo que não permite escuta, troca ou criatividade. O resultado é um ciclo vicioso, no qual advogados tornam-se repetidores de fórmulas vazias e os tribunais, espaços de reprodução de injustiças.
Resgatar a humanidade na justiça exige mais do que mudanças pontuais; exige uma revolução na forma como entendemos o papel do advogado e do sistema jurídico como um todo. É preciso devolver ao sujeito sua voz, reconhecendo que sua história não é um obstáculo ao processo, mas sim seu elemento central. Sem isso, continuaremos a testemunhar a morte do sujeito nas engrenagens de uma justiça que, ao silenciar aqueles que deveria proteger, silencia também a si mesma.
Cláudia Freire, psicanalista, pós graduada em Saúde Mental, com foco na análise de discursos limítrofes e na articulação entre subjetividade e sociedade.
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