A imagem que chega depois:


Imagem PEXEL


Quando emagreço, algo retorna. Não como lembrança nítida, mas como um reconhecimento silencioso. Há uma familiaridade que antecede a consciência, como se aquela forma já tivesse, em algum momento, encontrado lugar em mim. Não é novidade absoluta. É uma espécie de reencontro.


Mas isso não vale para todos.


Há quem nunca tenha sido magro. E, nesse caso, não há retorno possível — há invenção. O corpo muda sem memória que o sustente. Surge uma forma nova, mas ainda sem inscrição. O sujeito se vê, mas não se reconhece inteiramente. Falta história para essa imagem.


É nesse ponto que a psicanálise se torna precisa.


Freud nos mostra que o corpo não é apenas vivido — ele é investido. No narcisismo, há uma energia psíquica que se dirige à própria imagem. Amar o próprio corpo não é um dado natural, é um trabalho. Esse investimento depende das primeiras experiências, do modo como fomos olhados, sustentados, reconhecidos. O corpo que habitamos é também efeito desse olhar primeiro.


Quando o corpo muda, esse investimento não se reorganiza automaticamente. Ele precisa ser redistribuído. E esse processo não obedece à velocidade da perda de peso.


Françoise Dolto acrescenta algo decisivo ao falar da imagem inconsciente do corpo. Para ela, o corpo vivido não coincide com o corpo visível. Há uma imagem construída ao longo da vida, feita de marcas simbólicas, afetivas, relacionais. Essa imagem não se altera no mesmo ritmo que a forma física. Ela permanece, às vezes como resistência, às vezes como resto.


Por isso, alguém pode emagrecer e ainda se sentir ocupando mais espaço do que ocupa. Não se trata de erro perceptivo, mas de uma continuidade psíquica que não se deixa reorganizar tão facilmente.


Mas há um deslocamento ainda mais sensível.


O corpo não muda sozinho.


O olhar do outro muda junto.


E é esse deslocamento que introduz uma ruptura mais profunda. O sujeito passa a ser visto de outro modo. Aquilo que antes passava despercebido ganha presença. O corpo entra no campo do desejo do outro de uma forma diferente.


E isso não é simples.


Ser visto não é apenas ser notado — é ser colocado em uma posição. Há uma nova circulação de olhares, de respostas, de convites. O corpo passa a ter efeitos. E esses efeitos exigem algo do sujeito.


Sustentar um lugar.


Muitas vezes, o corpo já mudou, mas o sujeito ainda não se autorizou a ocupar essa nova posição. Surge então uma hesitação. Não é recusa do corpo, mas uma dificuldade de sustentar o que ele passou a provocar.


Porque ser desejado também desorganiza.


Não se trata apenas de receber o olhar, mas de responder a ele. E essa resposta não está pronta. Ela precisa ser construída.


É nesse ponto que o emagrecimento deixa de ser uma questão de forma.


E se torna uma questão de posição.


O que fazer com o lugar que o outro nos atribui? Aceitar? Recusar? Desconfiar? Ou reinventar esse lugar a partir de si?


O corpo, ao mudar, não resolve essa pergunta.


Ele apenas a coloca em cena.


E talvez seja isso que mais transforma: não a imagem que aparece no espelho, mas o modo como ela passa a circular entre o sujeito e o outro.



Cláudia Freire


Bibliografia


FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo. 1914.


DOLTO, Françoise. A imagem inconsciente do corpo. São Paulo: Perspectiva, 1984.

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