Marty Supreme

Marty Supreme não é um filme sobre ascensão, nem sobre glória esportiva, nem sobre o delírio da performance. É um filme sobre como sustentar a própria vida quando quase tudo falta — e isso aparece desde as primeiras imagens, não como tese, mas como matéria. O filme não explica, ele faz viver.
Marty é um jovem pobre, vendedor de sapatos na loja do tio, cercado por sinais claros de escassez: dinheiro curto, espaços apertados, barulho constante, tempo sempre em falta. As imagens iniciais não constroem um mito, constroem uma situação ( “olhe para isso tudo” e não “olhe para esse rapaz”).
A pobreza ali não é metáfora: ela comprime, acelera, desgasta. Quando Marty diz que não é vendedor de sapatos, mas atleta, ele não fala por grandiosidade nem por fantasia narcísica. Ele fala para não desaparecer.
O tênis de mesa surge como aquilo que ele sabe fazer muito bem. Não como ideal sublime, não como promessa de exceção, mas como competência concreta, talvez a única capaz de levá-lo a algum lugar onde seja possível sustentar a vida adulta que chega sem rede, sem amparo, sem investimento estatal. O filme acompanha, com insistência, as situações que ele atravessa para transformar isso em trabalho, renda e sobrevivência. Não há glamour. Há cálculo, repetição, risco, desgaste.
A forma do filme reforça essa experiência. As cenas passam rápido, o som é alto, agressivo, quase insuportável. É um filme barulhento, talvez o mais barulhento que já assisti. E isso não é excesso gratuito: é linguagem. O espectador não é convidado a contemplar, mas a aguentar. A pressa que se instala em quem assiste — o desejo de que aquilo termine — não é falha, é efeito. O filme faz o corpo de quem vê sentir algo da pressão que organiza a vida do personagem.
Há momentos em que essa aposta no excesso escorrega. Algumas cenas de violência — especialmente a do cachorro — não ampliam o conflito nem aprofundam o personagem. O filme já havia construído material suficiente para sustentar a dureza da existência de Marty. Ali, o choque parece dispensável, mais assinatura autoral do que necessidade narrativa.
Ainda assim, o núcleo permanece forte. Marty não é alegoria da hiperperformance contemporânea. Não é um sujeito embriagado pelo ideal do sucesso. Ele é um sobrevivente. Alguém que tenta fazer caber uma vida possível dentro de um mundo estreito, barulhento e indiferente. O filme não romantiza essa tentativa, mas também não a condena. Mostra, com frieza, que talento não garante estabilidade, que o corpo cobra, que o tempo desgasta, que nem mesmo fazer algo muito bem assegura proteção.
Marty Supreme não é um filme sobre vencer. É um filme sobre continuar. Continuar jogando, insistindo, tentando não afundar. E talvez seja isso que o torna tão incômodo quanto honesto.
cf.
Direção: Josh Safdie
Roteiro: Josh Safdie e Ronald Bronstein
Produção: A24
Elenco: Timothée Chalamet (Marty), Gwyneth Paltrow, Tyler
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