O regime freemium: conhecimento, acesso e mercantilização, por Cláudia Freire

Nos anos 1990, a chegada da internet foi saudada com entusiasmo por diversos setores da sociedade. Acadêmicos, jornalistas e tecnólogos falavam em democratização do saber, em ampliação do acesso ao conhecimento e em um novo modelo de circulação de ideias. Prometia-se um espaço horizontal, descentralizado, onde qualquer indivíduo com acesso à rede poderia pesquisar, aprender, produzir e participar de forma ativa na vida cultural e intelectual. A expectativa era que os limites da escolaridade, da geografia e da renda fossem atenuados por uma conectividade que aproximaria os saberes dos sujeitos.

Passadas três décadas, o cenário é outro. O que se observa, em 2025, é uma internet profundamente mercantilizada. A promessa de gratuidade e universalidade deu lugar a uma lógica de monetização em praticamente todas as esferas: da educação à saúde, da cultura à organização da vida cotidiana. Aplicativos que antes se apresentavam como facilitadores hoje operam por meio de modelos de assinatura, com valores que ultrapassam o poder aquisitivo de grande parte da população brasileira. Plataformas que oferecem leitura personalizada de textos acadêmicos, inteligência artificial voltada à produção de conteúdo ou cursos de especialização online frequentemente custam centenas ou milhares de reais por ano. Mesmo ferramentas de uso cotidiano, como tradutores, agendas e organizadores de tarefas, passaram a funcionar em regime de “freemium” — onde o gratuito é apenas uma amostra, e o acesso pleno exige pagamento contínuo.

Esse movimento tem implicações sérias. A internet tornou-se, cada vez mais, um espaço de exclusão simbólica. Aquilo que antes parecia disponível passou a estar condicionado ao consumo. Saber virou produto. O acesso à informação de qualidade passou a depender da capacidade de pagamento, não apenas da conexão técnica à rede, mas da entrada em plataformas, cursos, softwares, comunidades fechadas por assinaturas. A exclusão não se dá apenas por falta de internet, mas por presença de uma internet limitada à superfície, às versões gratuitas, rasas, muitas vezes distorcidas por algoritmos ou interesses comerciais.

É fundamental reconhecer que essa transformação não é apenas técnica, mas política. O que está em jogo é a redefinição dos regimes de acesso ao conhecimento. A utopia da web como campo de saber compartilhado cedeu lugar à internet como vitrine — onde tudo tem preço, e quase nada se sustenta fora da lógica de mercado. Como observa Byung-Chul Han (2018), a internet contemporânea não favorece o aprofundamento, mas a dispersão e a monetização da atenção. O saber, nesse contexto, não é cultivado, mas consumido. Da mesma forma, Evgeny Morozov (2013) denuncia o solucionismo tecnológico, que vende a ideia de que o digital resolverá todos os problemas sociais, enquanto, na prática, contribui para aprofundá-los por meio da vigilância e da mercantilização da experiência humana.

É preciso manter vivo o debate sobre o papel da internet na produção e circulação de saberes. Há experiências resistentes — bibliotecas digitais gratuitas, podcasts independentes, universidades que publicam materiais de livre acesso —, mas elas não ocupam o centro do ecossistema digital. São ilhas, muitas vezes invisibilizadas pelos grandes mecanismos de busca e pelas plataformas dominantes. Denunciar essa assimetria é um passo necessário para que se construa uma crítica pública mais ampla sobre o estado atual da cultura digital.

Não se trata de nostalgia em relação ao passado recente, mas de um chamado à responsabilidade coletiva: a quem pertence o saber em rede? Quem o acessa? Quem o controla? E, principalmente: quem está sendo deixado de fora?

Referências:

Han, Byung-Chul. No Enxame: Perspectivas do Digital. Petrópolis: Vozes, 2018.

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