Textualidade intensa, complexidade sintática com respiração própria - ensaio sobre o ressentimento (por Cláudia Freire)
“O ressentido é um narrador que repete frases prontas, que anda em círculos com a boca cheia de passado.”
Há dores que não passam porque se tornam lugar. Deixam de ser apenas um afeto: viram um cômodo psíquico — escuro, úmido, conhecido demais. Um espaço onde se vive agachado, protegido do movimento, mas exposto ao mofo das repetições. Ali o ressentimento se instala. Mais do que uma dor, ele passa a estruturar o sujeito: uma base endurecida ao longo dos anos.
Maria Rita Kehl nos conduz até esse lugar, onde o ressentimento se cristaliza e passa a ter uma função: manter o sujeito de pé, mesmo que à custa do enrijecimento. Não se trata de uma simples queixa, mas de uma forma de gozo — um prazer inconsciente que nasce da dor repetida. E há uma armadilha: o ressentido não quer, de fato, justiça. Ele quer que sua dor seja reconhecida. Mas, se essa dor for cuidada, se for possível olhá-la com outra lente e deixá-la se transformar numa cicatriz, algo muito profundo pode ruir. Porque o ressentimento que há décadas sustenta o sujeito é também o que ancora seus sintomas.
“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”
(Clarice Lispector, carta a Tania Kaufmann, 1948)
Nietzsche fala desse movimento reativo do ressentimento: um afeto que se recusa a elaborar, que paralisa e acusa. O outro é fixado como inimigo porque, em algum momento, foi cenário de uma frustração não simbolizada. Talvez um trauma pequeno, cotidiano — mas que tocou um ponto sem linguagem. Assim, o outro fica preso a uma imagem congelada, e o ressentido se fixa como vítima, incapaz de sustentar o horror de ter vivido aquilo junto com o outro.
No interior do livro Ressentimento, há uma parte que não pode ser deixada de lado: o ressentimento entre mães e filhas. Isso não é secundário — é o ponto de maior intensidade do livro, seu coração pulsante. Kehl fala de ressentimentos políticos, sociais e íntimos. Mas, quando escreve sobre a mãe — aquela que falha, que frustra, que exige demais ou que se omite —, ela toca algo que escapa às palavras. Esse ressentimento é ancestral, subterrâneo, é pulsão e pulsação. Não se formula com clareza, mas aparece na repetição dos gestos, na dor surda, na recusa do toque. A filha ressentida, muitas vezes, nem sabe o que sente — mas sente mesmo assim. É um tipo de ressentimento que não se pensa: se vive.
O ressentido também é como um porco-espinho. Vive entre os outros por necessidade — o inverno da vida é frio demais —, mas emite e recebe veneno com seus espinhos inflamados. Como aquele cachorro que se aproxima e sai com o focinho ferido, a cara inchada, os olhos amarelados de dor. Ou como quem leva uma ferroada de abelha no dedo: um ponto pequeno, delicado, mas que pulsa com tanta força que parece que a morte começa ali, na pontinha, e vai se espalhando, silenciosamente, pelo corpo inteiro.
Esses espinhos — ou ferrões — são guardados com cuidado. São espinhos dourados, objetos de estima. Não se jogam fora: contêm a história inteira. São dor e identidade. Como abandonar aquilo que sustenta o sujeito há tanto tempo? Como abrir mão da dor que diz quem ele é?
Como soltar esse espinho sem se perder de si? Como abrir mão do pilar de concreto sem desabar junto com ele? Talvez a saída não esteja na demolição, mas no escoramento. É preciso escorar o sujeito e seu sintoma. Oferecer sustentação para que algo possa se deslocar. Isso não se faz com pressa nem com fórmulas. Exige escuta clínica, comprometida, que reconhece o peso sem antecipar a cura.
É nesse ponto que entra a imagem esquecida de Bing Bong, personagem do filme Divertidamente. Ele está soterrado nos porões da memória infantil, num mundo onde ninguém mais o vê. Foi importante, mas agora é sobra, excesso, peso. Para sair de lá, precisa de uma companhia inesperada: a alegria. Mas não uma alegria forçada, ansiosa, performática. Uma alegria que escuta sem tentar consertar, que aceita o que há e acompanha.
Walter Benjamin nos lembra que a verdadeira experiência transforma o vivido em narrativa. O ressentimento faz o oposto: impede que a história aconteça. O ressentido repete frases prontas, anda em círculos com a boca cheia de passado. Para sair disso, é preciso abrir espaço para novas experiências. E, às vezes, é necessário que alguém empurre — com delicadeza — o sujeito para fora da repetição.
Mas sair dói. Inventar o que não foi vivido é estranho. Há perdas, há lutos, há silêncios que, quando rompem, gritam. Permanecer no ressentimento, porém, é como viver com o ferrão da abelha cravado no dedo por toda a vida. A dor muda de forma, mas nunca cessa. E o corpo, aos poucos, vai se envenenando por dentro.
O ressentimento não quer ser eliminado. Ele quer ser compreendido, nomeado, situado, recontado. E, quem sabe, depois disso, ele possa se transformar em algo mais leve — não mais como espinho, mas como memória ou uma agulha de crochê. Para que o sujeito, enfim, caminhe com leveza conquistada.
Dedico este texto a você, E. Fuji.
Agradeço por sua confiança.
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Bibliografia
KEHL, Maria Rita. Ressentimento. São Paulo: Boitempo, 2022.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987.
FREIRE, Cláudia. Textualidade intensa, complexidade sintática com respiração própria – um ensaio sobre o ressentimento. Inédito, 2025.
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